Neste último sábado (23) fui passear com meus amigos na Paulista e o caminho desde a luz estava cheio de escoteiros de diferentes grupos. “É o dia nacional do escoteiro, amor”, brinquei com meu namorado. Mas todos os lugares que íamos apareciam mais e mais grupos e comecei a me perguntar se não era mesmo alguma celebração em larga escala. Utilizando minhas habilidades jornalísticas, logo perguntei para alguns jovens simpáticos o que estava acontecendo. “Desbravadores. Viemos protestar contra violência digital”. Estes grupos são semelhantes aos escoteiros e ligados à Igreja Adventista. Acredito que tinham outros além deles, e diversos jovens e famílias participavam ativamente da passeata do Projeto Quebrando o Silêncio 2025, realizada no dia 24 de agosto de 2025, com concentração no MASP. O foco era alertar para a violência digital, em particular o cyberbullying, os golpes virtuais e a importância da denúncia.
Violência digital: o que revela o cenário atual
Entre 1º de janeiro e 31 de julho de 2025, a SaferNet Brasil registrou 49 336 denúncias anônimas de abuso e exploração sexual infantil, o que representa 64% de todas as notificações de crimes cibernéticos no período. Houve um aumento de 18,9% em relação ao mesmo período de 2024. Além disso, após a viralização do vídeo “Adultização”, do influenciador Felca, mais de 6 mil denúncias foram feitas só em agosto, sendo que 52% delas ocorreram após a publicação do vídeo, mostrando o poder das redes na visibilidade desses casos.
O impacto do uso excessivo de telas
O tempo excessivo em frente a telas agrava os riscos: crianças e adolescentes ficam mais vulneráveis a conteúdos inapropriados, assédio e isolamento emocional, além de depressão e ansiedade. Embora seja difícil quantificar, diversos relatos clínicos e educacionais associam híper-conexão a sérios prejuízos no comportamento, saúde mental e desenvolvimento social dos jovens.
Adultização de crianças e o debate legislativo
A denúncia de Felca sobre a adultização infantil — exposição precoce e sexualização de menores nas redes — reacendeu a discussão sobre a responsabilidade das plataformas e a proteção da infância no ambiente virtual
No Congresso, o PL 2.628/2022, apelidado de “ECA Digital”, voltou à pauta do Senado. Ele propõe que plataformas permitam aos pais gerenciar contas de menores, restrinjam perfis falsos e proíbam direcionamento de publicidade com base em manipulações emocionais — e destina receitas a políticas de proteção infantojuvenil. Além disso, foi instalada uma CPI da Adultização, para investigar abusos virtuais e exploração de menores.
Como se proteger: orientações para famílias e jovens
Para pais e responsáveis:
- Acompanhe discretamente a atividade online dos filhos sem invadir sua privacidade.
- Utilize ferramentas de controle parental, ajustando limites de acesso e horários.
- Estabeleça um diálogo aberto sobre riscos digitais, cyberbullying, sexualização e golpes.
- Ensine a identificar perfis falsos e a importância de não compartilhar dados pessoais.
- Incentive a denúncia em canais como SaferNet, Disque 100, ou diretamente nas plataformas.
Para crianças e adolescentes:
- Mantenha perfis privados e não adicione desconhecidos.
- Jamais compartilhe imagens íntimas, mesmo com pessoas conhecidas.
- Bloqueie e denuncie qualquer comportamento abusivo ou incômodo.
- Procure alguém de confiança, como amigos, professores ou psicólogos, para contar o que está acontecendo.








