Qual a diferença entre raça e etnia?

O recente show de Bad Bunny no super bowl e a revolta de Trump com a “afronta contra a soberania americana” trouxe diversas discussões sobre identidade humana. Não é de conhecimento geral que o conceito correto para distinção de povos e cultura se chama etnia. Então de onde vem o termo raça?

O termo de raça, como explica o filósofo David Theo Goldberg, surge a partir de uma ideologia eurocêntrica onde se acreditava que existia uma raça pura, os brancos não miscigenados. Desde então o termo raça foi utilizado para condenar, explorar e atacar outros corpos. Na busca de estabelecer uma sociedade branca global.

E este processo histórico estrutural e sistemático é o que chamamos de racismo hoje.

Um projeto de apagamento: a Eugenia no Brasil

No Brasil, temos um exemplo claro. Após a abolição, foi projetado por cientistas racistas e personagens influentes da época, como Monteiro Lobato, que em um século toda população brasileira se tornasse branca (projeto chamado de eugenia) com a miscigenação ao incentivar a imigração em massa dos europeus.

Importante lembrar, cientificamente nossa raça é uma só: humana. A construção social de raça, por si só, é racista.

O apagamento continua em curso, mesmo na modernidade

O racismo no Brasil não é apenas uma herança histórica, mas uma realidade estatística que dita quem vive e quem morre, quem lucra e quem é excluído.

 Conforme o IBGE e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, pessoas negras representam cerca de 78% das vítimas de homicídio no país. 

Além disso, a renda média de trabalhadores brancos chega a ser 70% superior à de trabalhadores pretos ou pardos, mesmo com níveis de escolaridade semelhantes, e embora sejam 56% da população, negros ocupam menos de 30% dos cargos de gerência.

O racismo velado é tão maléfico quanto o explícito

O que é o racismo velado? São as práticas que ocorrem de forma implícita, muitas vezes disfarçadas de “piada”, “preferência pessoal” ou “meritocracia”. É o racismo que se manifesta na ausência de pessoas negras em espaços de poder, sem que ninguém questione o porquê dessa falta.

Muitas vezes, pessoas brancas contribuem para a manutenção do racismo mesmo sem intenção direta ou agressiva. Isso acontece através do que estudiosos chamam de pacto da branquitude. Atitudes como: 

  • Não reagir a um comentário racista em um grupo de amigos para evitar “climão” valida a agressão e perpetua o preconceito.
  •  Indicar apenas amigos brancos para vagas de emprego, perpetua um ciclo onde o acesso permanece restrito ao mesmo grupo social.
  • Acreditar que o sucesso individual é fruto apenas do esforço, ignorando que a cor da pele para brancos nunca foi um obstáculo ou um fator de risco em abordagens policiais, ou processos seletivos.

Esse racismo, como define Djamila Ribeiro, é estrutural. Ele não se limita a atos individuais de preconceito, mas definindo lugares sociais e acesso a oportunidades, sendo responsabilidade de todos (especialmente pessoas brancas) desmantelá-lo ativamente, indo além do reconhecimento e promovendo ações antirracistas concretas.

Se você vive bem, é porque alguém sofreu por isso

Atitudes que contribuem para esse panorama precisam ser identificadas e combatidas. “Ah, mas eu nem era nascido quando essa segregação começou, não é minha responsabilidade consertar o racismo”, mentira. 

Se essa é a visão, então também não seria justo usufruir de todos os privilégios que construíram para você ao longo de sua vida. Sua casa, seu terreno, sua comida, tudo tem origem na exploração de povos marginalizados. A mão de obra barata.

Se o Brasil como nação acumulou riqueza e estabilidade sobre o trabalho escravizado, a reparação não é um acerto de contas pessoal entre indivíduos, mas uma política de Estado para equilibrar a balança que continua pendente.

Reconhecer que o sistema foi desenhado para privilegiar um fenótipo em detrimento de outros é o primeiro passo para uma postura verdadeiramente antirracista.

Reparação histórica não é sobre o passado, é sobre o futuro. Uma sociedade racista é uma sociedade violenta, desigual e economicamente ineficiente para todos. Consertar o racismo é um investimento na segurança, na economia e na justiça do país onde você vive agora. Dizer ‘não é minha responsabilidade’ é abrir mão do papel de cidadão que deseja um país desenvolvido.”

Arquivado em:

Compartilhe AGORA:

Picture of Larissa Crippa

Larissa Crippa

Jornalista com experiência tanto em hard quanto soft news, além de assessoria de imprensa e produção de conteúdo para redes. Já passou por grandes portais, como R7, Terra e Estadão. Atualmente atua como repórter e editora.

Veja todos os posts deste autor >

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *