Largo da Forca, Igreja dos Aflitos, Largo Paissandu, Liberdade, Vale do Anhangabaú, São Bento e Praça da Sé. Todos esses lugares em São Paulo possuem algo em comum: escondem protagonistas negros, muitos deles invisibilizados ao longo dos anos pelo racismo. Para que essas histórias sejam resgatadas e recontadas, o Guia Negro, plataforma de afroturismo, realiza uma experiência chamada Caminhada Negra, um percurso de 3,5 km que percorre locais relevantes para a cultura afro-brasileira na cidade.
Em agosto, alunos das turmas do 3º e 4º anos do Ensino Fundamental do espaço ekoa, tiveram a oportunidade de percorrer esse trajeto a pé, conhecendo a participação dessa população na construção de São Paulo. Durante a caminhada, as histórias são narradas pelos anfitriões de experiência do Guia Negro. Entre elas, a da escritora Carolina Maria de Jesus, a do jornalista, advogado e patrono da abolição Luiz Gama, e a de Zumbi, último dos líderes do Quilombo dos Palmares, que morreu em 20 de novembro de 1695, data em que se tornou feriado nacional.
De acordo com a orientadora pedagógica, Ana Clara Bin, a saída pedagógica foi pensada como parte do encerramento do Projeto Integrador, que investigou a história do bairro do Butantã. “Após estudarem o território onde vivem, sua história, geografia, marcas da Mata Atlântica e processos de invisibilização, a caminhada no centro da cidade permitiu comparar o Butantã com outro bairro. A proposta foi identificar semelhanças, refletir sobre a presença e a invisibilização do povo negro e ampliar a compreensão histórica a partir da relação entre os dois territórios”, explica.
Mais do que uma saída pedagógica, a Caminhada Negra possibilita às crianças um encontro vivo com a história do Brasil, integrando conteúdos antirracistas trabalhados em sala de aula ao diálogo com a cidade. O passeio apura o olhar, por exemplo, para a relação entre os indivíduos e suas conexões coletivas com o espaço público, a distribuição de riquezas na cidade e a maneira como essa mesma cidade impacta a vida de cada um.
A iniciativa está alinhada à proposta pedagógica do espaço ekoa, que assume a educação antirracista como um compromisso diário. Assim como ressalta a carta de princípios da escola, não basta a intenção: é preciso criar vivências e estruturas que sustentem práticas inclusivas de forma contínua.
No trajeto, os alunos também compartilharam suas impressões, reconhecendo que a cidade foi construída por diferentes mãos, histórias e culturas. Para a estudante Nina de Aquino Bonini, 4º ano, a experiência trouxe novas perspectivas sobre lugares conhecidos. “Participar da Caminhada Negra foi muito interessante porque mostrou um outro lado do bairro da Liberdade. Quando a gente passa por lá, só percebe a cultura asiática, mas não enxerga a presença negra. Durante a caminhada, descobri histórias e pessoas negras que lutaram pela liberdade e que também fazem parte daquele lugar, mesmo que isso não apareça de imediato. Eu senti que a cultura negra poderia estar mais visível no bairro, porque a Liberdade não é só Japão ou Ásia, é também África e Brasil.”
Já a estudante Julia Assami Thomaz, 3º ano, destacou uma das histórias mais marcantes que conheceu durante o percurso. “O que eu mais lembro é a história do soldado Chaguinhas. Ele foi condenado à forca, mas a corda arrebentou três vezes. As pessoas que estavam lá começaram a gritar ‘liberdade, liberdade, liberdade’, e por isso o bairro recebeu esse nome. Essa foi uma das histórias mais impactantes que aprendi na caminhada.”
Sobre o espaço ekoa
O espaço ekoa é uma escola que atende crianças de 4 meses às séries finais do Ensino Fundamental. É reconhecido como uma escola inovadora e referência na educação básica. O espaço físico é parte integrante do projeto pedagógico da escola e é um importante diferencial. As atividades são realizadas prioritariamente ao ar livre e as crianças e adolescentes podem se apropriar de todos os ambientes com segurança e responsabilidade.
As turmas são multietárias e não existem salas de aulas definidas, o que estimula a cooperação entre as crianças e contribui para que elas construam relações que podem durar a vida inteira.
O espaço ekoa fica na Rua Antonio Mariani, n° 58, Butantã, e está aberto de segunda a sexta-feira das 7 às 19 horas.








