O mundo dos famosos está a todo vapor com tantas separações e novos casais se formando. O público que acompanha esse nicho não poderia estar mais agitado. Depois do recente fim do casamento dos influenciadores Júlio Cocielo e Tata Estaniecki, as redes sociais foram inundadas com comentários como: “não acredito mais no amor”, “meu Deus, não consigo parar de chorar”, “alguém fala que é mentira!”, entre outras reações cheias de emoção.

Fiquei intrigada por esse cenário. Eu, que acompanho pouquíssimo de influenciadores e considero “famoso” mesmo só estrelas como Larissa Manoela e Maísa, não conseguia entender o que causa tanta histeria. Essas pessoas nunca conheceram esses influenciadores, mas sentem dor e revolta por suas vidas como fariam por um colega próximo. Por quê?
Anastacia Cristina Macuco Brum Barbosa, psicóloga pós-graduada em Psicanálise Clínica pelo Instituto Brasileiro de Psicanálise Clínica, explica que o ser humano é um ser relacional, que precisa de vínculos. “Na sociedade contemporânea, em que as relações presenciais estão cada vez mais escassas, as redes sociais se tornaram um espaço simbólico de encontro. Ao acompanhar a rotina, a voz, as emoções e até as vulnerabilidades de uma celebridade, o cérebro interpreta essa exposição como uma relação próxima, mesmo que seja unilateral”, explica.
E essa percepção me deixou triste. Segundo dados do Consumer Pulse 2025, o brasileiro passa cerca de 9 horas e 13 minutos online, consumindo conteúdos diversos, em sua maioria reels, stories e vídeos no TikTok. Essa prática, segundo reportagem trazida pela Forbes, “reprograma” o cérebro para pior. O consumo excessivo de vídeos curtos pode reduzir a capacidade de atenção e foco, prejudicar a memória e a tomada de decisões, além de gerar um estado de hiperestimulação e fadiga mental. Esse hábito cria um padrão de recompensa imediata que vicia o cérebro, tornando mais difícil se concentrar em tarefas longas e complexas.
Logo, a combinação de saturação mental e falso senso de amizade é o combo perfeito para pessoas cada vez mais deprimidas e menos sociáveis (pelo menos ao vivo), presas a telas apenas imaginando uma vida. “Existe um forte componente de identificação projetiva: as pessoas se veem nas celebridades, projetam nelas seus desejos, carências e ideais. A figura pública se torna uma tela na qual o indivíduo projeta partes de si — quem é, quem gostaria de ser ou o que acredita não poder ser”, explica Anastacia.
As consequências negativas dessa relação com as redes são óbvias, mas minha intenção não é apenas demonizar a tecnologia. É legal que possamos compartilhar aspectos da nossa humanidade com outras pessoas; rimos, nos emocionamos, admiramos… Os aplicativos permitem uma troca interativa e diversa, mas esse benefício deveria ser secundário às emoções reais e presenciais.
Anastacia explica que toda essa relação vai além da empatia. “Pode haver empatia, mas também algo mais profundo: escapismo, carência afetiva ou solidão. Ao projetar emoções em figuras públicas, o indivíduo encontra uma maneira de viver emoções intensas sem se expor nas próprias relações”, pontua. A internet permite que indivíduos sintam emoções sem efetivamente se arriscar no processo. “O algoritmo reforça o que desperta emoção e engajamento. Se uma pessoa se emociona com determinado famoso, o sistema passa a entregar ainda mais conteúdo sobre ele, o que intensifica o vínculo e a sensação de proximidade”, comenta. A psicóloga explica que essa ilusão de intimidade gera uma falsa sensação de pertencimento. O público sente que tem o direito de opinar, criticar, defender ou cobrar, como se fizesse parte de um círculo de convivência.
E a solução da problemática não está em “proibir influenciadores” ou “banir o Instagram”, mas sim em espalhar consciência aos usuários. Precisamos nós mesmos entender o poder que esse contato pode ter em nossas vidas, mesmo que de forma subconsciente. Até quem não acompanha não está imune ao efeito. Já me peguei diversas vezes me comparando a essas figuras: minha rotina, minhas relações, meu lazer. E a verdade é que, mesmo que exista um sentimento de identificação quando vemos algum conteúdo que nos agrada, ele deveria surtir muito menos impacto em nossa tomada de decisões.
Especialistas ouvidos por diferentes canais, como portal CIEE e GHZ, alertam: para reduzir o impacto negativo das redes sociais, é possível limitar o tempo de uso e desativar notificações, priorizar atividades offline como exercícios ou hobbies, limpar o feed seguindo perfis positivos e com senso crítico, e estabelecer limites físicos, como áreas e horários sem telas. Essas orientações valem para qualquer faixa etária — mas principalmente para crianças e adolescentes, ainda em fase de formação.
Anastacia alerta que essa realidade revela uma cultura de carência emocional coletiva e de consumo de emoções. “Vivemos um tempo em que a visibilidade virou sinônimo de valor. As pessoas se sentem mais próximas de quem é visto, e isso alimenta o ciclo da idolatria e da projeção”, explica. É preciso quebrar o ciclo. “É importante reconhecer que essa proximidade é uma construção simbólica. Admirar é natural, mas é essencial voltar o olhar para a própria vida: cultivar vínculos reais, estar presente nas próprias relações e não usar a vida alheia como fuga da própria”, conclui Anastacia.








