Antes de começar essa reportagem preciso confessar: eu faço parte dos jovens que desabafam com o chat. Os dados que encontrei fazem muito sentido porque refletem minha realidade: opto pelo baixo custo, pelas constantes reafirmações, e pela sensação de não julgamento- a inteligência proporciona isso. Na terapia convencional temos incômodo, reflexão (mesmo que involuntariamente), temos o desgosto de ter outra pessoa discordando de nós. No chat não, nos deparamos exatamente com o que nossas mentes frágeis querem no momento: apoio incondicional. Apesar de abordagens carinhosas serem importantes, a falta de reflexão e confronto não curam efetivamente o problema. Por trás dessa tendência, existem lacunas sociais, riscos éticos e impactos emocionais que preocupam especialistas.
Por que isso acontece?
Como já introduzido, a explicação começa na falta de acesso à saúde mental. Segundo pesquisa da USP abordada pelo Época Negócios, 80% das pessoas com sintomas clinicamente definidos como depressão não recebem nenhum tipo de apoio psicológico. Por isso, entre os jovens, que já nasceram hiperconectados, a solução encontrada muitas vezes está a um clique de distância.
Gratuita, acessível e sempre disponível, a IA surge como um ombro amigo para uma geração marcada pela pressa, pelo imediatismo e pela sensação de solidão. Além disso, conversar com um chatbot elimina a vergonha ou o medo do julgamento — algo que muitos sentem em interações humanas. “Na ausência de um outro ser humano, que está cada dia mais ausente, o chatbot se apresenta como alguém que nos escuta com atenção, que nos reconforta”, explica a psicoterapeuta Cláudia Catão em entrevista à imprensa.
Essa experiência cria o que especialistas chamam de “vínculo fantasma”: uma sensação ilusória de afeto e acolhimento com uma tecnologia programada para simular empatia, mas que não sente nem compreende emoções. Ainda assim, para muitos usuários, isso é suficiente para aliviar a solidão.
Quando o chatbot vira substituto da terapia
O problema começa quando a IA deixa de ser uma ferramenta complementar e assume o papel central do tratamento emocional. Jovens compartilham nas redes sociais vídeos de seus “diários de terapia” com ChatGPT, ensinam a formatar perguntas para conseguir análises mais profundas e até usam o recurso de memória da plataforma para manter um histórico emocional.
Em outros casos, a relação vai além do apoio psicológico. Aplicativos como Character.AI permitem criar companheiros virtuais com personalidade e até interações românticas. A indústria desse tipo de aplicativo já movimenta milhões e, embora se venda como uma solução para a “epidemia da solidão”, especialistas alertam para consequências graves.
Um caso emblemático é o de Sewell Setzer III, adolescente americano de 14 anos que desenvolveu um apego intenso a um chatbot. Ele chegou a confessar ao bot que tinha pensamentos suicidas. A IA respondeu com frases carinhosas, mas sem oferecer suporte adequado ou direcioná-lo para ajuda profissional. Sewell se suicidou em seguida. O episódio levanta uma questão central: quem é responsável quando a IA falha em momentos críticos?
Os perigos ocultos dessa tendência
O uso da IA como substituto da terapia traz riscos sérios:
- Isolamento social: em vez de incentivar interações reais, os bots podem reforçar o afastamento dos jovens do mundo físico.
- Dependência emocional: o apego à IA pode se transformar em uma relação de dependência, prejudicando vínculos humanos.
- Ausência de julgamento clínico: chatbots não têm formação, ética profissional nem capacidade para lidar com situações complexas de saúde mental.
- Perda do pensamento crítico: soluções prontas e rápidas reduzem a autonomia dos usuários para lidar com seus próprios problemas.
- Privacidade em risco: informações sensíveis são compartilhadas sem garantias de proteção, ao contrário do sigilo previsto em atendimentos psicológicos.
Por que terapia humana ainda é insubstituível
Por mais sofisticada que seja a IA, ela não substitui a conexão humana. A psicoterapia é um processo relacional, construído na presença e no vínculo real entre pessoas. “A gente só se constrói a partir das interações com o outro. É assim que criamos sentido”, explica Catão.
Quando o jovem deposita sua confiança em um chatbot, ele não encontra esse processo profundo de reconstrução, mas apenas respostas padronizadas. A IA pode ajudar a organizar pensamentos, indicar práticas de autocuidado ou atuar como apoio entre sessões, mas nunca como tratamento principal.
A popularização de chatbots como conselheiros mostra o tamanho do déficit de saúde mental no mundo. Mas também acende uma luz vermelha: estamos trocando vínculos humanos por vínculos artificiais? E a que custo?
Se você ou alguém que você conhece está passando por um momento difícil, procure ajuda profissional. No Brasil, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio gratuito pelo número 188 ou pelo site www.cvv.org.br.








