Ser magro não é ser saúdavel: epidemia de falsa saúde agrava quadro já precário

O laboratório EMS começou a vender a caneta Olire no Brasil em agosto de 2025, produzindo 150 mil unidades no lançamento e prevendo a disponibilidade de até 500 mil unidades até o final de 2026 — um mercado em claro crescimento. Porém, a busca por um corpo mais magro não está necessariamente relacionada a um corpo mais saudável. No Brasil, o problema é ainda mais profundo: a alimentação do brasileiro médio não é equilibrada, tampouco acessível.

De acordo com o Banco Mundial, 2,6 bilhões de pessoas no mundo — 32% da população global — não têm como financiar uma dieta saudável. Dentro do território brasileiro, o quadro se agrava: sete em cada dez brasileiros não conseguem pagar por uma alimentação de qualidade, segundo o Pacto Contra a Fome. Ou seja, é mais barato se alimentar mal do que investir em nutrição adequada, o que torna a magreza, alcançada muitas vezes por vias artificiais, um falso sinal de saúde.

A atriz Lily Collins, estrela da série Emily em Paris, foi um dos nomes que recentemente expôs a contradição dessa cultura. Durante a Semana da Moda em Nova York, sua magreza extrema virou alvo de comentários e críticas. Collins já relatou publicamente ter sofrido com anorexia nervosa na juventude, transtorno ligado justamente à pressão por se encaixar em padrões inalcançáveis. O episódio reacendeu o debate sobre a ditadura da magreza e seus efeitos, sobretudo em mulheres jovens.

“Muitos jovens passam a acreditar que emagrecer é sinônimo de sucesso, beleza, felicidade e aceitação social”, explica a psicóloga clínica Eliana Gonçalves, especialista em Psicoterapia na INSELF Neuropsicologia Avançada. “A busca obsessiva pela magreza pode desencadear transtornos como anorexia, bulimia e compulsão alimentar. Dietas e comportamentos compensatórios, como exercícios em excesso, são comuns entre jovens que se sentem cada vez mais pressionados a se encaixar nesse padrão ideal.”

Segundo dados oficiais, 4,7% da população brasileira sofre com algum transtorno alimentar, número que pode chegar a 10% entre os jovens. A prevalência entre mulheres é significativamente maior, impulsionada por fatores como redes sociais e a própria indústria da moda e do entretenimento.

O crescimento do mercado de medicamentos para emagrecimento amplia o alerta. “O uso de remédios como o Ozempic com foco exclusivamente estético pode desencadear efeitos psicológicos preocupantes, como transtornos alimentares, dismorfia corporal, dependência emocional, ansiedade generalizada e até depressão”, aponta Eliana.

Nos anos 2000, a cultura da magreza já havia levado a inúmeros casos de anorexia e bulimia. Agora, com as redes sociais amplificando padrões e comparações, a tendência se intensifica e ameaça ressurgir como uma epidemia silenciosa de falsa saúde.

Para a psicóloga, o desafio é cultural: “É fundamental promover uma relação saudável com o corpo, baseada na aceitação, na funcionalidade e no equilíbrio. A saúde não pode estar submetida à estética ou a padrões inalcançáveis”. Ela alerta que os principais sinais físicos de que algo está errado incluem:

• Recusa frequente de refeições, especialmente em público.
• Realização de dietas extremamente restritivas ou eliminação de grupos alimentares inteiros (como carboidratos ou gorduras).
• Uso excessivo de adoçantes, suplementos ou substitutos de refeição.

Alternativas saudáveis de cuidado com o corpo e com a imagem

Magreza não é sinônimo de saúde — e acreditar nisso é justamente o que sustenta uma indústria multibilionária que lucra com a insegurança das pessoas. A lógica do capitalismo quer que você se sinta constantemente insuficiente para consumir mais produtos, sejam remédios para emagrecer, suplementos ou dietas da moda. Em vez de se submeter a esse ciclo, é fundamental investir em saúde real: alimentação equilibrada, sono de qualidade e atividade física como fonte de energia, disposição e bem-estar mental, não apenas como ferramenta para perder peso. Valorizar o corpo pela sua funcionalidade — aquilo que ele permite fazer no dia a dia — é um passo importante para quebrar padrões estéticos inalcançáveis. Buscar apoio profissional também é essencial para ressignificar pensamentos disfuncionais e reconstruir a relação com a própria imagem. Em última instância, cuidar de si significa nutrir o corpo, e não privá-lo.

Alimentos saudáveis de menor custo

Manter uma alimentação nutritiva mesmo com pouco dinheiro é possível quando se aposta em alimentos básicos e acessíveis. A tradicional combinação de arroz com feijão, por exemplo, garante proteínas, fibras e minerais essenciais, com custo médio entre R$ 5 e R$ 8 o quilo em mercados de bairro e atacadistas. O ovo continua sendo a proteína mais barata e versátil, enquanto cortes como coxa e sobrecoxa de frango oferecem uma alternativa nutritiva às carnes vermelhas mais caras. Entre as frutas, a banana e o mamão se destacam pela acessibilidade em feiras livres e hortifrútis populares, principalmente no fim do dia, quando os preços caem. Fontes de carboidratos saudáveis como abóbora, batata-doce e mandioca sustentam mais e custam em média R$ 4 a R$ 6 o quilo. Já verduras de estação, como couve, alface e espinafre, aparecem a partir de R$ 2 o maço em feiras e sacolões. Para completar, o leite integral ou em pó é alternativa para garantir cálcio e proteína, e a sardinha, seja fresca ou enlatada, oferece proteína de qualidade e ômega-3 por um preço inferior ao de outros peixes.

Compartilhe AGORA:

Picture of Larissa Crippa

Larissa Crippa

Jornalista com experiência tanto em hard quanto soft news, além de assessoria de imprensa e produção de conteúdo para redes. Já passou por grandes portais, como R7, Terra e Estadão. Atualmente atua como repórter e editora.

Veja todos os posts deste autor >

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *