Em 1822, Dom Pedro I proclamava a independência do Brasil às margens do Ipiranga, rompendo com a monarquia portuguesa e marcando o início da soberania nacional. Ontem, 203 anos depois, o povo brasileiro voltou às ruas clamando por liberdade — mas, desta vez, sob diferentes bandeiras: de um lado, a defesa da democracia e do julgamento de Jair Bolsonaro; do outro, o pedido de anistia e o retorno do ex-presidente ao cenário eleitoral.
O feriado, antes restrito a desfiles cívicos, tornou-se um reflexo da polarização que persiste no país. As manifestações do 7 de Setembro de 2025 aconteceram em mais de 20 capitais, em meio ao julgamento histórico do Supremo Tribunal Federal (STF) contra Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado.
Manifestações na capital paulista
Em São Paulo, dois atos simultâneos simbolizaram o racha político. Na Praça da República, cerca de 9 mil pessoas, segundo o Cebrap, protestaram contra a anistia e exigiram punição aos envolvidos nos atos golpistas. As palavras de ordem acompanharam o discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, veiculado na véspera, quando afirmou que o Brasil “não será colônia de ninguém” e acusou setores da oposição de “traição à pátria”.
Na Avenida Paulista, o ato pró-Bolsonaro reuniu 42 mil manifestantes, liderados por figuras como o governador Tarcísio de Freitas, o pastor Silas Malafaia e Michelle Bolsonaro. Tarcísio defendeu uma anistia ampla e a candidatura do ex-presidente em 2026, acusando o STF de julgar “um crime que não existiu” e criticando duramente o ministro Alexandre de Moraes.
O que está em jogo no STF?
O julgamento apura os crimes de tentativa de golpe de Estado e abolição violenta do Estado Democrático de Direito (artigos 359-L e 359-M do Código Penal), com penas que variam de 4 a 12 anos de prisão. Bolsonaro e outros sete réus são acusados de planejar, financiar e incentivar atos que culminaram nos ataques de 8 de janeiro de 2023.
Caso condenado, Bolsonaro poderá perder os direitos políticos por até oito anos e ser impedido de disputar as eleições de 2026, além da possibilidade de pena em regime fechado.
Polarização que não dá trégua
A atual divisão política tem raízes nas Jornadas de Junho de 2013, intensificou-se com o impeachment de Dilma Rousseff em 2016 e atingiu seu auge com a prisão de Lula em 2018 e a eleição de Bolsonaro. Desde então, a disputa ideológica se acirrou, transformando datas históricas, como o 7 de Setembro, em palcos para a guerra política.
Olhando para 2026, a tendência é de um confronto direto entre Tarcísio de Freitas, que deve herdar a liderança do campo bolsonarista, e Lula, hoje a única figura competitiva da centro-esquerda. Fora ele, a esquerda, mesmo centrista, não apresenta outro nome de peso — e, talvez, com o fim da era Lula, essa corrente tende a perder força no Brasil.
Enquanto isso, a direita não mede esforços para mobilizar suas bases, como demonstraram os números expressivos de manifestantes ontem. Já a esquerda, com um público bem menor, evidencia sua dificuldade de engajamento, escancarando uma discrepância que pode definir o rumo da política nacional nos próximos anos.








