Se você é ligado em tendências e polêmicas do mundo pop, provavelmente se deparou com o novo comercial da American Eagle estrelado por Sydney Sweeney, 27, conhecida por Euphoria (2019) e Todos Menos Você (2023). A peça publicitária gira em torno de um trocadilho, no mínimo infeliz, entre as palavras jeans e genes. A atriz, branca, loira, de olhos claros, é apresentada como alguém com “ótimos genes”, em uma campanha que não apenas reforça estereótipos racistas, como também sexualiza uma vez uma figura feminina em troca de engajamento, hábito pelo qual Sydney também é bastante conhecida.
O caso repercutiu com mais força nesta segunda-feira (4), quando o atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, elogiou publicamente o comercial. Após ser informado de que Sydney pretende se filiar ao Partido Republicano, Trump declarou a jornalistas: “Eu acho o comercial dela fantástico”. Horas depois, voltou a tocar no assunto em sua rede social, Truth Social, plataforma que costuma usar para alimentar sua base ultraconservadora.
Mas por que um comercial como esse, recheado de simbolismos perigosos, passou por tantas etapas até ir ao ar? Por que nenhuma retratação foi feita, mesmo diante da repercussão negativa? A resposta pode estar menos na distração e mais na conveniência.

Nos Estados Unidos e, em maior ou menor grau, também no Brasil, o discurso da “liberdade de expressão” tem sido usado como escudo para justificar conteúdos que beiram o eugenismo. O culto ao corpo branco, aos traços considerados “padrão”, à mulher magra e submissa, ao homem forte e dominante, continuam sendo amplamente explorados pela indústria cultural e política. Não por acaso, a adesão de Sydney ao Partido Republicano foi celebrada: sua imagem representa exatamente o que a ala conservadora deseja propagar, e quer ela concorde ou não com tais ideais, descobriu uma grande fonte de renda. Que vai começar a rejeitá-la assim que dos 30 anos, diga-se de passagem, já que esses fanáticos de direita também flertam com a cultura da pedofilia.
Os reflexos desse movimento ultraconservador já aparecem nas relações interpessoais. Segundo estudo recente do Pew Research Center, 63% dos homens jovens nos EUA se identificam com valores mais conservadores, enquanto o mesmo não acontece entre as mulheres, cada vez mais progressistas. O resultado? Um distanciamento crescente entre os gêneros, tanto afetivo quanto ideológico. Nunca se namorou e transou tão pouco entre adultos jovens quanto agora.
Enquanto o mundo tenta parecer moderno, a verdade é que pouco mudou. A polêmica da campanha da American Eagle não gerou medidas porque, no fundo, a sociedade ainda é conservadora, preconceituosa e não aboliu suas raízes eugenistas. Preferimos fingir que a luta acabou e que está tudo bem agora, mas é no silêncio que a opressão cria raízes. Quando campanhas como essa passam impunes, quando figuras públicas endossam discursos disfarçados de “opinião” e ninguém se incomoda, normalizamos o inaceitável. É como diz a frase atribuída ao escritor Bernhard Schlink: “Se você está sentado com seis pessoas e um nazista se junta a vocês, e ninguém se levanta, então você tem sete nazistas na mesa”. Precisamos continuar discutindo esses assuntos, denunciando, boicotando figuras e empresas que promovem retrocessos. Fingir que já vencemos é a forma mais perigosa de perder.








