Crise climática agrava desigualdade e ameaça direito à moradia
A poucas semanas da realização da COP30, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a cidade de Belém (PA) vive uma transformação acelerada que escancara as contradições entre o discurso da sustentabilidade e a realidade social da Amazônia. Enquanto obras de infraestrutura se multiplicam e o governo promete deixar um “legado verde”, milhares de famílias enfrentam o risco de remoção, a precariedade habitacional e os efeitos diretos da crise climática.
Belém foi escolhida para sediar o evento internacional em novembro de 2025, e desde então se tornou símbolo de esperança e de conflito. A cidade, que é uma das capitais mais afetadas por enchentes e alagamentos no país, vive um processo intenso de valorização imobiliária e expansão de obras públicas. Segundo levantamento da Fundação João Pinheiro, o déficit habitacional na região metropolitana supera 80 mil moradias, e mais da metade dos domicílios em bairros periféricos se encontram em áreas de risco ou sem infraestrutura básica.
Essas mudanças atingem em cheio comunidades tradicionais e bairros populares como a Vila da Barca e a região do Tucunduba, onde famílias denunciam remoções forçadas e indenizações insuficientes. “Hoje moro agregada. Não é a mesma coisa, né? Quando a casa é nossa, é diferente”, conta Creusa, moradora da comunidade, que vive sob incerteza quanto ao futuro. As intervenções, justificadas pelo governo como parte de projetos de macrodrenagem e mobilidade, também são criticadas por urbanistas e movimentos sociais, que apontam a ausência de participação popular nos processos de decisão.
As obras da COP30 podem reforçar um modelo de “revitalização excludente”, priorizando áreas centrais e turísticas em detrimento das periferias. “O risco não é apenas natural ou climático ele é social. A pobreza e a falta de políticas habitacionais ampliam a vulnerabilidade das famílias diante dos desastres”, alerta o relatório do instituto.
Além do impacto urbano, a capital paraense enfrenta uma combinação de aquecimento global e desigualdade histórica. Estudos do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC) mostram que Belém é uma das cidades amazônicas mais expostas a eventos extremos, como chuvas intensas e ondas de calor. Em 2024, a média de temperatura aumentou 1,4°C em relação à década anterior, e o número de dias com alagamentos dobrou em comparação a 2010.
Visão de especialistas sobre a COP 30
Os especialistas também chamam atenção para o racismo ambiental, conceito que se manifesta na forma desigual como os impactos climáticos atingem comunidades pretas e ribeirinhas. Em Belém, pessoas negras e pardas representam mais de 70% da população que vive em áreas de risco, segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). “A COP30 precisa ser um espaço de escuta e não apenas de discursos. Caso contrário, será mais um evento que fala de justiça climática sem praticá-la”, afirma a pesquisadora Luiza Santos, do Núcleo Amazônico de Justiça Ambiental.
O governo estadual e a prefeitura defendem que as intervenções em andamento que incluem obras de mobilidade, drenagem e habitação deixarão um legado duradouro para a cidade. No entanto, movimentos sociais alertam que, sem transparência e participação comunitária, o legado pode ser o oposto: mais exclusão, gentrificação e aumento da desigualdade.
Com a contagem regressiva para o início da COP30, Belém se torna o retrato de um desafio global: como conciliar desenvolvimento urbano, justiça climática e direito à moradia digna em tempos de emergência ambiental.








