Neste domingo (8), Bad Bunny comandou o show do intervalo do Super Bowl, a partida que decide o campeão da National Football League (NFL), a principal liga de futebol americano dos Estados Unidos.
A apresentação foi cheia de referências, críticas e reflexões, diante do cenário atual envolvendo os Estados Unidos, a imigração e a comunidade latina. Marcada por um forte tom político, o show foi algo inédito na história do Super Bowl.
No final da sua apresentação, o cantor deu uma aula sobre o que realmente é a América, enfurecendo Donald Trump, abertamente preconceituoso, que afirmou que o espetáculo representou “uma afronta à grandeza da América”.
Um final que deixou marca
Bad Bunny entrou em cena segurando uma bola de futebol com a inscrição “Juntos, somos a América”. Ao seu redor, bailarinos e músicos exibiam bandeiras de diferentes países do continente, reforçando a mensagem de união.
Em inglês, o cantor disse “Deus abençoe a América”, retomando uma expressão tradicional do discurso patriótico nos Estados Unidos. Logo depois, ampliou o significado da palavra ao listar países da América do Sul, passando por Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Peru, Equador, Brasil e Colômbia, até chegar ao Norte do continente, incluindo os Estados Unidos e, por último, “minha terra mãe, Porto Rico”.
Enquanto o telão projetava a frase “A única coisa mais poderosa que o ódio é o amor”, o artista encerrou o show ao som de “Dtmf”, música que dá nome ao álbum mais recente e aborda temas como afeto, saudade, identidade e memória.
A “revolta de Trump”
Depois do espetáculo, Donald Trump fez um textão em suas redes afirmando que a apresentação foi confusa, ofensiva e afrontosa. O caso repercutiu na web, que relembrou a atual participação do presidente no caso Epstein, em investigação. “Ele comprova cada vez mais que é uma pessoa ruim mesmo”, afirma um, “Isso é ele tentando ser polêmico para fazer cortina de fumaça e abafar que é p*dofilo e ab*sador”, respondeu outro.
Mas afinal, quem são os americanos?
Para o resto do mundo, “América” é um continente. Para os EUA, é um país. Essa apropriação do termo não é apenas semântica, é uma herança da Doutrina Monroe (1823), resumida no lema “América para os americanos”. Na prática, isso estabeleceu os EUA como os “donos” do hemisfério, apagando a identidade continental dos vizinhos.
- Na Teoria: Americano é qualquer indivíduo nascido nas Américas (do Sul, Central ou do Norte).
- Na Visão Estadunidense: “American” é o cidadão dos EUA. Quem vem do sul é categorizado sob o guarda-chuva genérico de “Latino” ou “Hispanic”, termos que surgiram no Censo dos EUA na década de 1970 para agrupar populações de origens diversas em um único bloco político e burocrático.
Por que os EUA veem a raça de forma tão diferente?
Essa distorção ocorre porque, enquanto no Brasil definimos raça pela aparência (fenótipo), nos Estados Unidos a raça é definida pela ‘pureza’ da origem. Ao cruzar a fronteira, mesmo uma pessoa lida como branca no Brasil é classificada diferente.
A Regra de “Uma Gota” (One-Drop Rule)
Historicamente, nos EUA, existia a “regra de uma gota”: se você tivesse qualquer ancestralidade não branca, você não era branco. Isso criou uma barreira binária: ou você é “White” (de ascendência puramente europeia, preferencialmente anglo-saxã), ou é “People of Color” (POC).
Para o olhar estadunidense, “Latino” virou uma raça, embora seja uma etnia. Como nós somos de um país colonizado por ibéricos e localizado ao sul do Rio Grande, eles aplicam um processo de racialização. Eles não olham para a nossa pele, mas para a nossa origem geográfica e linguística.
No Brasil, o racismo é baseado na aparência. Se você é branco aqui, tem privilégios de branco no dia a dia. Nos EUA, o sistema deles “achata” as identidades.
Para um supremacista ou até para o sistema de imigração, uma brasileira branca e um mexicano indígena podem ser colocados na mesma categoria de “invasores” ou “estrangeiros”. Para eles, ser americano é um privilégio exclusivo de quem nasceu sob a bandeira originalmente “americana”.








