Adultização de menores: fenômeno que viralizou através de Felca não é de casos isolados

Recentemente, o youtuber Felca (Felipe Bressanim Pereira) chamou atenção nas redes ao fazer uma denuncia grave: a adultização de menores que tem acontecido nas redes. Em um vídeo publicado na quinta-feira (7), ele mira especificamente no influenciador digital Hytalo Santos, que acumula mais de 17 milhões de seguidores, acusando-o de promover a “adultização” e a sexualização de menores em seus vídeos. Entre os casos citados está o de Kamylinha, que participa dos conteúdos desde os 12 anos e, segundo Felca, foi inserida em um ambiente de danças sensuais, interações amorosas e festas com adultos.

As consequências dessas denúncias vieram rapidamente: os perfis de Hytalo e da jovem Kamylinha foram removidos do ar no Instagram na sexta-feira, com mensagens de “página indisponível” aparecendo para quem tentava acessá-los. Paralelamente, o Ministério Público do Trabalho da 13ª Região instaurou um inquérito contra o influenciador, seu marido e suas empresas associadas, investigando a possível exploração de trabalho infantil e irregularidades na operação do grupo “Turma do Hytalo”.

A denúncia ganhou força também no âmbito político: a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) manifestou apoio ao youtuber e reforçou que acionou a Polícia Federal, cobrando das plataformas digitais responsabilidades sobre a exposição infantil. Segundo ela, é inaceitável que conteúdos que sexualizam menores sejam produzidos e disponibilizados em massa para consumo público.

 

Adultização de crianças se propaga pelas redes

As denúncias envolvendo Hytalo Santos não são um caso isolado. O fenômeno da adultização precoce, especialmente entre meninas, tem se tornado cada vez mais comum com o avanço das redes sociais. A sociedade brasileira de psicologia aponta que a exposição intensa a conteúdos de maquiagem, estética e beleza, frequentemente idealizados por influenciadores, induz meninas pré-adolescentes a se espelharem em padrões adultos irreais. 

Ester Brígida Dourado, psicóloga infanto juvenil, contou em um artigo compartilhado pela UFG (Universidade Federal de Goiás) que a exposição as redes leva jovens ao desejo de amadurecer mais rápido e a idealizar a mulher e não a menina. “Essa exposição constante a quantidade de conteúdo relacionada à beleza, a moda, a maquiagem… são vistos como modelo de comportamento, as jovens acreditam que esse é o certo, que esse é o padrão, mas é um padrão irreal de beleza”. Segundo um levantamento da Kantar, o uso de máscara de cílios por essa faixa etária cresceu para 20 % em 2023 — reforçando essa tendência.

 

Desenvolvimento infantil também é prejudicado

Do ponto de vista do desenvolvimento infantil, os estudos são unânimes: o tempo excessivo de tela e a superexposição digital prejudicam o neurodesenvolvimento motor, cognitivo e emocional. O artigo  INFLUÊNCIA DO USO DE TELAS NO DESENVOLVIMENTO NA PRIMEIRA INFÂNCIA: REVISÃO NARRATIVA DE LITERATURA conclui que a introdução precoce e repetida de dispositivos eletrônicos pode atrasar marcos importantes, como atenção, linguagem e habilidades psicomotoras. Existem impactos estruturais significativos no cérebro infantil, com redução da espessura cortical em áreas cruciais para funções executivas, atenção e autorregulação emocional.

Os danos para a faixa etária são marcantes, e apesar da sociedade estar começando a perceber essa movimentação estranha, como o caso de Felca, não se discute ativamentee nos locais devidos formas de controlar tais consequencias negativas, principalmente no caso das meninas, maiores vítimas da sexualização.

O papel dos órgãos reguladores é vital. Devem atuar definindo diretrizes claras sobre o tempo de telas, incentivando conteúdos apropriados à faixa etária e exigindo que plataformas digitais implementem mecanismos de proteção infantil e remoção de conteúdo.

Os pais também têm um papel fundamental na prevenção. É recomendável limitar o tempo de tela, incentivando brincadeiras ao ar livre, leitura e atividades criativas. A psicoterapia e a educação emocional são ferramentas poderosas para construir autoestima baseada em valorização pessoal, não estética. Supervisão do conteúdo, comunicação aberta e valorização de atributos não físicos — como bondade e inteligência — formam a base para resistência a esses padrões danosos.

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Larissa Crippa

Jornalista com experiência tanto em hard quanto soft news, além de assessoria de imprensa e produção de conteúdo para redes. Já passou por grandes portais, como R7, Terra e Estadão. Atualmente atua como repórter e editora.

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