O Brasil atingiu uma taxa de desemprego de 5,8% no último trimestre, segundo dados do IBGE — o menor patamar desde 2012 e próximo do que os economistas chamam de pleno emprego. O dado é, à primeira vista, motivo para comemoração. No entanto, por trás do índice histórico, surgem desafios que vão desde a falta de profissionais qualificados até um fenômeno mais silencioso e preocupante: a precarização das relações de trabalho, marcada pela pejotização e pela perda de direitos.
Especialistas como Guilherme Silva, administrador e sócio fundador da Forward, lembram que o pleno emprego só se sustenta quando há mão de obra qualificada e condições de trabalho capazes de reter talentos. Hoje, empresas enfrentam dificuldade para preencher vagas em setores técnicos, como engenharia e tecnologia, e também em serviços mais pesados, como construção civil e trabalho doméstico. Essa escassez não ocorre apenas pela ausência de formação, mas também pelo desinteresse crescente de profissionais em aceitar postos com alta exigência e pouca proteção.
Por que o “desinteresse”?
Um dos fatores que ajudam a explicar essa realidade é a expansão do modelo PJ (Pessoa Jurídica) como forma predominante de contratação. No setor de comunicação, por exemplo, levantamento do Portal Comunique-se indica que 54,1% dos profissionais atuam como PJ — número que chega a 61,5% em agências. A promessa de “menos burocracia e mais renda” muitas vezes esconde um cenário de exploração, insegurança e ausência de direitos básicos, como férias remuneradas, 13º salário, licença-maternidade e cobertura previdenciária.
O discurso do “empreendedor de si mesmo” e do “trabalhar com liberdade” tem se espalhado especialmente entre os jovens. Segundo o Sebrae-SP, 44% dos MEIs no país têm até 34 anos, muitos atuando em áreas como comunicação, marketing digital e tecnologia. Influenciadores e empresas reforçam essa narrativa, mas dados do próprio Sebrae mostram que 61% dos microempreendedores ganham até dois salários mínimos, e mais de 80% não têm reserva financeira. A taxa de mortalidade desses negócios é alta: metade fecha em até cinco anos.
Essa dinâmica tem impactos diretos no futuro. A pejotização, quando usada para burlar a CLT, reduz a qualidade de vida, fragiliza a segurança financeira e cria uma bomba-relógio previdenciária: milhões de trabalhadores sem contribuição regular ao INSS e sem renda para se aposentar. Mulheres, negros, mães solo, profissionais iniciantes e pessoas mais velhas estão entre os grupos mais vulneráveis a esse modelo, sujeitos a chantagens emocionais e financeiras que dificultam a recusa a condições abusivas.
Para Guilherme Silva, as empresas precisam investir não apenas em qualificação técnica, mas também em formas de tornar o emprego atraente e sustentável. “As dificuldades de encontrar mão de obra qualificada são reflexos do crescimento econômico, mas também do desafio de reter talentos em um cenário em que as pessoas buscam melhores salários ou maior flexibilidade”, afirma.
Sem políticas públicas que equilibrem flexibilidade e proteção social, o pleno emprego pode se tornar uma miragem: um índice baixo de desemprego, mas sustentado por vínculos frágeis, alta rotatividade e trabalhadores sobrecarregados. É preciso intensificar a fiscalização sobre vínculos fraudulentos, equiparar alguns direitos dos PJs aos de trabalhadores CLT e fortalecer sindicatos e conselhos profissionais para oferecer suporte jurídico e psicológico.
Se o país não enfrentar a precarização agora, o risco é claro: teremos menos gente disposta — ou capaz — de ocupar as vagas que surgirem, não por falta de trabalho, mas por falta de trabalho digno.








