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UFSCar licencia tecnologia para diagnóstico sorológico da hanseníase

O Brasil registra, em média, 30 mil novos casos de hanseníase por ano, segundo dados do Ministério da Saúde, e segue entre os países com maior incidência da doença no mundo. Apesar de tratável com medicamentos, a hanseníase ainda é considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) uma enfermidade negligenciada, em grande parte devido à dificuldade de diagnóstico precoce. Exames tradicionais, como a baciloscopia, além de invasivos, têm baixa eficácia em estágios iniciais, o que faz com que muitos pacientes só recebam a confirmação quando já apresentam sequelas irreversíveis.

Nesse cenário, pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), em parceria com a Universidade Federal do Paraná (UFPR), desenvolveram uma tecnologia inovadora de diagnóstico sorológico. O trabalho foi conduzido pela pesquisadora Sthéfane Valle de Almeida em seu doutorado, sob orientação do professor Ronaldo Censi Faria, do Departamento de Química da UFSCar, e coorientação de Juliana Ferreira de Moura, da UFPR. Almeida, atualmente docente na UFRGS, foi reconhecida em 2024 com o Prêmio Capes de Tese, destaque nacional em produção científica.

Segundo Faria, o teste se diferencia por ser pouco invasivo, simples de aplicar e capaz de detectar tanto pacientes sintomáticos quanto contatos assintomáticos que carregam o bacilo da hanseníase. “O dispositivo foi pensado para oferecer uma leitura rápida, de fácil interpretação e aplicável em regiões com pouca infraestrutura laboratorial, diferente dos métodos atuais”, explica o pesquisador.

Da pesquisa ao mercado

A tecnologia foi licenciada com apoio da Agência de Inovação da UFSCar (AIn.UFSCar) para a Clyons Diagnóstica, startup originada de pesquisas da universidade e especializada em biossensores para doenças humanas crônicas, oncológicas e infecciosas.

Para Thiago do Prado, diretor executivo da empresa, o momento é estratégico. “O Ministério da Saúde lançou recentemente o programa Brasil Saudável: Unir para Cuidar, alinhado à Agenda 2030 da ONU, que prevê a eliminação de doenças infecciosas na América Latina. Adaptamos a tecnologia para um formato comercial e acessível, com o objetivo de que o produto chegue ao SUS, especialmente nas regiões endêmicas, onde o diagnóstico precoce pode transformar a vida dos pacientes”, afirma.

Já Lucas Catunda, diretor de dados e comunicação da Clyons, destaca a urgência social da inovação. “A hanseníase não mata, mas incapacita. Muitos pacientes chegam ao tratamento quando já não conseguem trabalhar ou realizar atividades básicas, ficando condenados a sequelas. Nosso teste busca evitar esse ciclo ao identificar não apenas os doentes, mas também familiares e contatos que podem transmitir o bacilo sem manifestar sintomas.”

Foto: Adriana Arruda

Papel da Agência de Inovação

Para o professor Faria, a atuação da AIn.UFSCar foi fundamental para a transferência da tecnologia. “O grande mérito da Agência foi criar condições para que a patente se transformasse em produto”, afirma.

Desde 2008, a Agência funciona como Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT) da universidade, sendo responsável pela proteção da propriedade intelectual e pela aproximação com empresas. Até hoje, já licenciou mais de 90 tecnologias, em áreas como saúde, biotecnologia, agricultura e engenharia, com retorno acumulado superior a R$ 23 milhões em royalties.

Próximos passos

Atualmente, o teste está em fase de validação clínica e processo de registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A expectativa é de que, após a aprovação, ele esteja disponível para uso em larga escala no sistema público de saúde.

“O compromisso é que a tecnologia seja útil aos profissionais da linha de frente, principalmente em áreas endêmicas. A ciência só cumpre seu papel quando chega a quem mais precisa dela”, conclui Prado.

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Leonardo Nascimento

Jornalista, tecnólogo em Comunicação Institucional e pós-graduando em Jornalismo Cultural e de Entretenimento.

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