Por Carlos Henrique Lima, diretor executivo do Instituto Reciclar
A ascensão da inteligência artificial (IA) no mercado de trabalho tem aprofundado desigualdades já existentes, sobretudo entre jovens em situação de vulnerabilidade social. Com esse grupo enfrentando diversas barreiras estruturais para acessar educação de qualidade, conectividade e oportunidades de formação, o desenvolvimento das habilidades técnicas e socioemocionais cada vez mais exigidas pelas empresas fica comprometido. Assim, em vez de inclusão e acessibilidade, o avanço da IA pode representar exclusão profissional, baixa empregabilidade, limitação das perspectivas de renda e perpetuação dos ciclos de pobreza e marginalização social.
Realidade brasileira
Esse cenário é especialmente preocupante em um país como o Brasil, onde o acesso à educação de qualidade e à formação continuada ainda é um privilégio. Em 2024, tínhamos cerca de 9,1 milhões de pessoas com 15 anos ou mais analfabetas.
O levantamento da PNAD Contínua sobre Educação, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostrou que a taxa de escolarização dos jovens entre 18 e 24 anos de idade foi de apenas 31,2%, e que só 27,1% deles estavam cursando a etapa adequada para a idade, ou seja, o ensino superior. Entre as 48 milhões de pessoas de 15 a 29 anos no país, 18,5% não estavam ocupadas, não estudavam e nem se qualificavam. Esse quadro de exclusão educacional e profissional revela um desafio claro entre a juventude brasileira e as exigências de um mercado cada vez mais automatizado, e ajuda a explicar por que a automação, mais do que uma tendência tecnológica, se torna uma ameaça concreta para milhares de jovens vulneráveis.
Entre os principais pontos que envolvem o tema, a automação tornou-se parte, mas não o todo do problema. Com essa forte tendência à substituição de funções específicas por máquinas e sistemas de IA nos próximos anos, os jovens vulneráveis socialmente serão os mais impactados.
Isso porque esse movimento tende a atingir com mais força justamente os trabalhadores que ocupam cargos operacionais, com menor exigência de formação técnica ou superior, funções geralmente desempenhadas por jovens em início de carreira. Quando esses cargos desaparecem, sem que haja programas de capacitação acessíveis ou políticas de transição para novas funções, o resultado é um reforço das desigualdades. A tecnologia, nesse caso, não gera inclusão produtiva, mas reforça barreiras.
Segundo análise da LCA 4intelligence com base em dados da OIT (Organização Internacional do Trabalho), a IA generativa pode afetar até 31,3 milhões de empregos no Brasil. Os dados apontam ainda que o grupo de jovens entre 14 e 18 anos é o terceiro mais vulnerável às transformações tecnológicas e que 12,8% dos trabalhadores nessa faixa etária estão vulneráveis à substituição por IA, já que ocupam funções altamente expostas à automação.
Enquanto alguns levantamentos apontam que a IA deve eliminar milhões de empregos, o Fórum Econômico Mundial (WEF) estima que ela poderá criar cerca de 69 milhões de novas oportunidades, a maioria delas exigindo competências digitais, pensamento crítico, criatividade e resolução de problemas complexos, soft skills essenciais para o mercado atual. No Brasil, uma pesquisa realizada pelo Instituto Reciclar e o Centro Integração Empresa Escola (CIEE) mostrou que, entre as competências socioemocionais em maior procura pelos empregadores, estão as habilidades de comunicação, proatividade e flexibilidade de adaptação diante de situações inesperadas. Porém, mesmo com perspectivas positivas, a transição poderá ser especialmente desafiadora para quem tem menor escolaridade ou acesso limitado à tecnologia.
E o que fazer?
Por isso, é preciso ir além e assumir um compromisso real: o que estamos dispostos a fazer para combater as desigualdades que afetarão principalmente os jovens em situação de vulnerabilidade social no Brasil? A resposta para essa pergunta está em investir em formação técnica acessível, promover programas de educação inclusiva, oferecer mentorias de carreira para esses jovens e garantir apoio concreto para o desenvolvimento dessa geração, que estará no centro da força de trabalho nos próximos anos. Para isso, o envolvimento dos três setores se faz necessário, seja com a promoção, desenvolvimento ou execução de projetos, é preciso viabilizar a inclusão produtiva e gerar mais oportunidades, caminhos e condições reais para que todos possam acompanhar as transformações do mercado e as tendências do futuro do trabalho.
Cursos gratuitos em tech e IA
A DIO (Digital Innovation One) é uma plataforma brasileira de educação tecnológica que conecta profissionais e empresas, oferecendo cursos e experiências práticas para acelerar carreiras no setor de tecnologia. Entre as oportunidades disponíveis, a DIO disponibiliza bootcamps gratuitos de Inteligência Artificial (IA), ideais para quem deseja aprender conceitos avançados, praticar com projetos reais e se preparar para o mercado de trabalho. Esses programas incluem trilhas de aprendizado com conteúdos atualizados, mentorias e certificação gratuita. Para conhecer os bootcamps e se inscrever, acesse: https://www.dio.me/








